Aurora

10/09/2026

São 04h48 quando saio do camarim.

Ainda encontro glitter na clavícula.

Desisti de tirar.

Existe uma hora da madrugada em que a gente precisa aceitar certas derrotas.

O cílio esquerdo também decidiu permanecer comigo. O direito está dentro da bolsa, enrolado num pedaço de papel higiênico, ao lado de um batom vermelho, dois brincos que pesam mais do que deveriam e cento e oitenta reais amassados.

Foi uma boa noite.

Lá fora, São Paulo parece outra cidade.

Sem música, sem fumaça, sem alguém gritando meu nome antes de eu entrar no palco.

Só alguns carros.

Um homem fumando na calçada.

E eu.

Peço um carro.

Cinco minutos.

Aproveito para me olhar pela câmera do celular.

O batom sobreviveu.

A dignidade também.

Quase.

— Boa noite.

— Bom dia — respondo.

O motorista ri.

Entro.

Ele confirma o endereço e seguimos.

Estou de casaco preto por cima do figurino. As pernas doem. Meu cabelo está preso de qualquer jeito e sinto alguma coisa pinicando perto da orelha.

Provavelmente glitter.

Ou cola.

Não importa.

Encosto a cabeça no vidro.

No reflexo da janela ainda consigo vê-la.

Aurora.

É engraçado.

Passei quatro horas sendo Aurora para algumas centenas de pessoas e agora ela está espremida comigo no banco de trás de um carro.

O motorista olha pelo retrovisor.

Olha novamente.

Na terceira vez, percebo.

— Pode perguntar.

Ele fica sem graça.

— Perguntar o quê?

— O que você está querendo perguntar desde que eu entrei.

Ele ri.

— É tão óbvio assim?

— Muito.

Silêncio.

— Aurora é seu nome mesmo?

Olho pela janela.

— É.

Ele demora alguns segundos.

— Não, digo...

Já sei.

— Seu nome de verdade.

Meu nome de verdade.

Engraçado como algumas perguntas parecem pequenas até encontrarem o lugar certo para doer.

Minha mãe me chama de José.

Minha irmã me chama de Zé.

Meu pai, quando está bravo, usa meu nome inteiro.

José Antonio.

Nunca é bom quando vem o Antonio.

Para alguns amigos sou Zé.

Para outros, J.

Para um homem que amei durante três anos, fui amor, vida, idiota, volta aqui e, durante os últimos meses, absolutamente nada.

E há Aurora.

Aurora nasceu numa quinta-feira.

Eu tinha vinte e dois anos, uma peruca ruim e nenhuma ideia do que estava fazendo.

Escolhi o nome cinco minutos antes de subir ao palco.

— Como eu te anuncio? — perguntaram.

Olhei para o espelho.

Não sei por quê.

Disse:

— Aurora.

E fui.

Naquela noite, quinze pessoas gritaram meu nome.

Hoje foram quase trezentas.

Nenhuma delas perguntou se era de verdade.

— José Antonio — respondo.

O motorista balança a cabeça.

— Bonito.

— Obrigado.

Ele continua dirigindo.

Achei que a conversa tivesse acabado.

— E Aurora?

— O que tem?

— De onde veio?

Sorrio.

— Não sei.

— Como não sabe?

— Veio.

Ele parece considerar minha resposta insuficiente.

Eu considero perfeita.

Paramos num sinal.

Vermelho.

Olho novamente para o vidro.

Metade do meu rosto está iluminada pela rua.

A outra metade ainda carrega o azul da maquiagem.

José Antonio de um lado.

Aurora do outro.

Essa seria a interpretação óbvia.

Mas não funciona assim.

Nunca funcionou.

Aurora sabe coisas que José Antonio não sabe.

José Antonio conhece lugares onde Aurora nunca esteve.

Os dois sabem a senha do meu celular.

Os dois choraram pela mesma pessoa.

Os dois têm medo de envelhecer.

Os dois odeiam ervilhas.

Talvez isso resolva alguma coisa.

— Posso perguntar outra?

— Você já perguntou.

Ele ri.

— Quando você está assim... você prefere que te chamem de Aurora?

Olho para ele pelo retrovisor.

Penso um pouco.

— Quando eu estou assim, eu prefiro que me chamem para um café e me deixem dormir até às duas.

Ele gargalha.

Eu também.

O sinal abre.

Chegamos.

Dou cinco estrelas porque ele dirigiu bem e porque, às seis e cinquenta da manhã, não tenho disposição para avaliar seres humanos.

Abro a porta.

— Boa noite, José Antonio.

Paro.

Ele percebe.

— Ou Aurora?

Olho para ele.

Depois para mim.

O casaco aberto.

A maquiagem pela metade.

O glitter que se recusou a ir embora.

— Hoje pode ser Aurora.

Ele sorri.

— Boa noite, Aurora.

— Bom dia.

Fecho a porta.

Minha irmã está sentada na entrada do prédio.

Levanto uma sobrancelha.

— O que você está fazendo aqui?

Ela levanta um copo de café.

— Você esqueceu a chave de novo.

Procuro na bolsa.

Batom.

Dinheiro.

Cílio.

Brinco.

Nenhuma chave.

— Talvez.

Ela me entrega o café.

— Você está horrível.

— Fiz três entradas hoje.

— Continua horrível.

— Trezentas pessoas discordariam.

Entramos.

No espelho do elevador, finalmente vejo o estrago.

Um cílio.

Metade do batom.

Glitter na testa.

A peruca torta.

Minha irmã olha para mim pelo espelho.

— Foi boa a noite?

— Foi.

— Arrasou?

— Sempre.

Ela sorri.

A porta do elevador abre.

Saímos.

Ela anda alguns passos na minha frente e percebe que fiquei para trás.

Vira.

— Vem, Aurora.

Vou.

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