03h17
Saio do banho. São 21h e tenho a sensação de que a noite vai render.
Boto isso fielmente na minha mente.
Entre uma troca de roupa e outra, bebo um vinho que Diogo trouxe de Nova Iorque num domingo de compras que ele fez.
Peço para Alexa tocar Space Sound To Dance, da Fernanda Abreu.
A música começa e, por alguns minutos, danço de cueca no quarto, cercado pelas roupas que experimentei e abandonei sobre a cama.
Como é libertadora a dádiva de sentir a vida pulsando nas veias e no coração.
Termino de me arrumar.
A produção está completa.
Borrifo um perfume de notas florais.
Vênus em Áries.
Preciso colaborar com os astros.
Chego na Born This Way Club.
A casa está cheia.
Sinto a luz neon atravessar meu rosto, meu corpo, desaparecer e voltar alguns segundos depois.
Que frisson.
No bar, conheço Olívia.
Ela é aeromoça e está de folga por quatro dias.
— Eu sempre trago um livro comigo — ela diz, mostrando um volume pequeno dentro da bolsa. — Depois dos voos eu nunca consigo dormir.
Pergunto o que ela gosta de ler.
Ela começa a falar de romances, biografias, poesia. Fala rápido. Feliz demais.
Em algum momento, pergunta:
— Você escreve?
— Talvez.
Ela ri.
— Se escreve, é escritor.
Decido gostar de Olívia.
Lucas volta do banheiro alguns minutos depois.
Eufórico, atravessa o bar sem perceber que estou ali.
Olívia segura seu braço.
— Lucas, este é Luciano. Nos conhecemos há alguns minutos, mas parece uma década.
Ele olha para mim.
— Isso é bom ou ruim?
— Ainda não decidi.
Nos cumprimentamos.
Dois beijinhos de cada lado.
Carioca.
As horas passam sem pedir licença.
Na pista, Olívia desaparece para buscar outra bebida.
A música aumenta.
A pista também.
Lucas está perto de mim.
Perto demais para ser apenas consequência da multidão.
Ele oferece o copo.
— Gin?
Bebo.
— Tem hortelã.
— Percebi.
— Gostou?
— Horrível.
Ele ri.
— Você bebeu.
— Para ter certeza.
Lucas segura minha cintura.
E me beija.
Fiquei apaixonado.
Lua em Câncer.
Socorro.
Mais tarde, na fumaça da noite, perco Olívia e Lucas.
Procuro perto do bar.
Na pista.
Do lado de fora.
Nada.
Olho o celular.
Nenhuma mensagem.
Fico nervoso.
Na verdade, furioso.
É estranho quando alguém entra na nossa vida por algumas horas e, ainda assim, parece cometer uma espécie de abandono quando desaparece.
Peço um Uber.
No banco de trás, bêbado de sono, vejo São Paulo passar borrada pela janela.
Penso em Olívia.
Penso no livro dentro da bolsa dela.
Penso no gin.
Penso, principalmente, que não pedi o número de Lucas.
Chego em casa.
Tiro os sapatos antes mesmo de acender a luz.
Depois de tantas horas dentro da música, o silêncio do apartamento parece enorme.
Bebo água direto da garrafa.
O vinho continua sobre a mesa.
As roupas continuam sobre a cama.
Olho o celular.
03h17.
Esvazio os bolsos.
A chave.
Um recibo amassado.
O celular.
E um pedaço de papel dobrado.
Abro.
Reconheço o nome antes mesmo de entender a frase.
Luciano,
da próxima vez, não deixa a noite acabar sem me pedir meu número.
Lucas.
Abaixo do nome, onze dígitos escritos às pressas.
Leio uma vez.
Depois outra.
Sorrio.
Pego o celular.
Digito o número.
Fico alguns segundos olhando para a tela.
Não escrevo nada.
Ainda.
Pela janela, uma luz atravessa o quarto.
Passa pelo meu rosto,
pelo meu corpo,
e desaparece.
Alguns segundos depois,
volta.
